O fim do reino de Israel | A conquista da Babilônia | Referências Bibliográficas
A inércia mais ou menos forçada do Assur-nirari causou por vários anos uma quase total inatividade do exército. Os “turtânu”, para os quais as botins do guerra representavam a maior parte do seus vencimentos, mordiam o freio. E os “coronéis” desocupados se punham a serviço dos governadores, agora autônomos e poderosos, a ponto do dar-se ao luxo de conduzir guerras e conquistas por conta própria. A revolta de Nimrud foi um típico golpe militar que, uma vez eliminado Assur-nirari — presumivelmente assassinado — levou ao trono um general não mais jovem que assume o nome de Teglatfalassar, o terceiro na seqüência.
Não sabemos quem possa ter sido: se um “filho de ninguém”, ou como alguns supõem, um príncipe babilônio parente de Semí-ramis ou um irmão do rei destronado. De qualquer forma, o que importa é que demonstrou ser efetivamente o “homem forte” o perfeitamente idôneo para tomar as rédeas da situação.
Enquanto as instituições desmoronavam-se, as tribos araméias tinham retomado as suas incursões em território assírio. Teglatfalassar põe imediatamente o exército em pé de guerra, guia-o até aos confins meridionais, desbarata os itua, e prosseguindo ao longo do Tigre vai até ao Golfo Pérsico, derramando “torrentes do sangue” entre os outros nômades (Rúbios, Khamarus, e outros). Os sacerdotes das cidades libertadas do tormento dos assaltos contínuos o acolhem como a um libertador.
Em verdade, no passado, as belicosas tribos nômades muitas vezes gozaram de implícito bem-estar de quem estava interessado em deixar as coisas como estão, para ver como é que fica. Foi o que aconteceu; por exemplo, por parte de Babel, para molestar os assírios, e por parte da terra do Caldu, para molestar os babilônios.
Mas agora, Nabonassar, empenhadíssimo em reconstruir a ordem interna, ficou bem feliz que a colega assírio se desse ao trabalho de limpar as suas fronteiras.
Cumprida esta expedição punitiva que empanturrou de botim os seus ávidos soldados, Teglatfalassar III apressou-se a imprimir um novo curso ao sou império. Para expandir a economia, aboliu todos os privilégios fiscais de que gozavam as grandes ou antigas cidades e dou amplas possibilidades de desenvolvimento a comerciantes e lavradores. E para diminuir o poder dos governadores, subdividiu os grandes territórios que lhes estavam confiados em muitas províncias muito menores, a frente das quais colocou homens do sua confiança.
No terceiro ano, Teglatfalassar está pronto para enfrentar o problema mais escaldante: o “Reino do Biaina”. O equilíbrio da balança era sempre Arpad, que não obstante o juramento que lhe fora imposto por Assur-nirari, não inspirava a mínima confiança. Se Arpad passasse para o lado do Sardur III o equilíbrio de forças saltaria para o lado do rei de Biaina, que, em caso do vitoria, não encontraria nenhum obstáculo sério aos seus apetites em relação á Síria e à Palestina.
Em Arpad, pois, se decidiriam os destinos futuros e contra esta cidade Teglatfalassar conduz seu exército em 743 a.e.c. Sardur III intui o jogo e corre em auxílio de Arpad. O rei assírio, com uma fulminante inversão de marcha, se precipita a barrar-lhe a passagem. A refrega ocorre “nos territórios de Khistan o Khalpi, distritos do país de Cummukh”, portanto pouco ao sul da antiga Samosata, a cinco ou seis dias de marcha de Arpad.
Deixemos a palavra a Teglatfalassar:
“No terceiro ano de meu reinado, Sarduaris (Sardur), Rei de Urartu, aliou-se a Mati’lu de Arpad, Suinulaci do Milidu (em grego “Melitene”, hoje Malatya), Tar-khulara de Gungunu, Chuchtachpi do Cummnukh (...)
Com o poderoso auxílio de Assur, meu Senhor, combati contra eles, derrotei-os, desbaratei seus guerreiros, enchi as gargantas e penhascos com seus cadáveres, (...) e destruí seus carros sem conta.
Em meio a esta carnificina, Sarduaris, para salvar a vida, fugiu durante a noite, e não se viu que caminho tomou (...). Eu o segui até a ponte sobre o Eufrates, limite de meu país (...) e capturei todo seu equipamento, e seu leito de campanha (...)”.
Magnífica vitória, mas não tão arrebatadora a ponto do permitir que Teglatfalassar aniquilasse Sardur pessoalmente; contra ele deverá novamente medir-se entre o quarto e o nono ano em mais cinco campanhas em Urartu. Seria fascinante segui-lo passo a passo, mas cerca de cinqüenta anos mais tarde, Assarhaddon abaterá o palácio de Teglatfalassar III em Nimrud, utilizando, para construir o seu, os materiais do outro, inclusive as pedras com as inscrições, que ficaram muito danificadas. Sabe-se, no entanto, que Teglatfalassar operou um programa de grande alcance durante o qual foi a locais jamais mencionados, antes ou depois, “todos distritos da longínqua Media” e chegou até “o Monte Bicni”, que é o Demavend, uma centena de quilômetros além de Teerã. Com a quinta campanha, o cerco estava executado; só restava penetrar no centra do “Reino de Biaina”. Penetrou nele no décimo ano o no décimo-primeiro (em 735 a.e.c.) chega perante Van.
Mas nem desta vez pode capturar Sardur: Van, dada sua posição, não podia ser assediada, porque do lado do lago recebia todas as provisões que lhe eram necessárias, e pelo outro lado, enquanto fortaleza, era inexpugnável. Teglatfalassar teve de se resignar a saquear toda a vizinhança, “1350 bois, 190000 cabeças de gado miúdo” e voltar para casa. Entretanto, o império de Biaina estava destruído.
Ao mesmo tempo, a Síria foi eliminada; no ano subseqüente, à primeira derrota de Sardur em Cummukh, Teglatfalassar voltou correndo a atacar Arpad, a qual muitas cidades amigas haviam prometido apoio. Não conseguindo conquistá-la, cercou-a; a cidade suportou heroicamente o assédio por três anos; em 74O a.e.c. Arpad cede, pela fome, e a sorte é atroz. Aos aliados, para evitar sofrer o mesmo fim, só restou fazer ato do submissão e pagar pesados tributos. Somente o rei Tatammu do pequeno reino de Unqui, sabre o Oronte, recusou desdenhosamente dobrar-se ao presunçoso. O rei assírio saqueou sua capital “Eu contei as mulas saqueadas, como se contam as ovelhas” e a destruiu. Depois a reconstruiu, repovoou-a com outra gente e colocou um governador assírio.
Em 738 a.e.c., no oitavo ano, enquanto Teglatfalassar está ocupado em Urartu, contra ele se forma uma coalizão guiada impensadamente pelo neo-hitita Hama, que, de fato, depois de uma breve luta torna-se província assíria. Os outros, entre as quais o rei Reson (ou Resin) de Damasco e Menahem de Israel, por ora se salvam pagando pesados tributos.
Em 734 a.e.c., no décimo-segundo ano, livre de Sardur, Teglatfalassar volta ao ocidente para reafirmar sua própria supremacia e chega até Gaza, capital dos filisteus. Poucas linhas que sobreviveram até agora, anunciam que:
“Khanunu, Rei de Gaza, fugindo parasite as minhas armas, refugiara-se em Musri... Conquistei a cidade... - ouro, prata, vestes multicores...”.
Musri é o Egito, que se encontra agora limítrofe com a império assírio.
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O fim do reino de Israel
Nos dois reinos hebraicos, isto é, Israel com a capital na Samaria e judá com a capital em Jerusalém, pouco antes da subida ao trono do Teglatfalassar III reinavam respectivamente: Jeroboão II e Ozias, chamado também Azarias (hebr.: ‘Uzziyah).
Ozias (784-755 a.e.c.), soberano muito eficiente, retomando a velha política econômica de Salomão, e constituindo um forte exército ao qual não faltavam imponentes máquinas bélicas copiadas dos assírios, tomara dos edomitas o Golfo de Ácaba e aos filisteus um par de cidades à margem do Mediterrâneo, implantando entre um e outro uma lucrativa via caravaneira munida de fortalezas e hospedarias permanentes. Jerusalém florescia, e as finanças prosperavam. Mas Ozias, por volta de 755 a.e.c., contrai a lepra, que o conduz à morte cerca de dez anos mais tarde; o trono foi assumido pelo filho Joatão.
Também a Samaria estava em boas mãos: Jeroboão II, em seu longo reinado (786-747 a.e.c.) conquistou vários territórios e levou Israel a um invejável grau de bem-estar. O profeta Amós lamentava que o rei pensasse muito mais nos negócios do que em Deus, tanto que, um dia, sentenciou publicamente: ‘Pela espada deverá perecer Jeroboão, e Israel será exilado para longe de sua pátria!”. Mas, no momento, para o exílio ele é quem foi.
Seu pessimismo, porém, não era de todo sem fundamento: a morte de Jeroboão sobrevém o caos e sobre o trono do Samaria se sucederam entre 747 e 745 a.e.c., três reis: os primeiros dois acabaram assassinados, e o terceiro, Menahem, durou, pelo sistema do terror, por uns dez anos.
Esta situação perdurava quando em 738 a.e.c. Teglatfalassar, conquistada Hama, assomou, ameaçador, às fronteiras de Israel. Diz a Bíblia judaico-cristão (Reis, II, 15-19; 2O):
“Phui (Teglatfalassar) veio à nossa terra e Menahem deu a Phui mil talentos de prata para que viesse em sue ajuda, assegurando-lhe o trono. E Menahem cobrou dos poderosos e abastados de Israel este valor, na proporção de cinqüenta ciclos de prata cada um, para poder pagar o rei da Assíria. E este foi-se embora e não parou em nossa terra”.
Assim Menahem garantiu a sua independência e sobretudo um formidável reforço para seu trono vacilante. Naturalmente, 4OOOO “poderosos e abastados” desembolsaram o preço de sua má vontade, e não surpreende que, à morte de Menahem, seu filho fosse assassinado pelo general Pecakh, o qual ilegitimamente também subiu ao trono com intenções muito belicosas.
De fato, os 1OOO talentos eram só um una tantum, ao passa que era preciso pagar os tributos ordinários todas os anos. Pecakh julgou inaceitável tal contrata-cabresto, mas sozinho não podia livrar-se dele. Firmou alianças com todos os que tinham os mesmas problemas que ele e conseguiu erguer uma respeitável coalizão de que faziam parte, entre outros, Reson de Damasco, a rainha árabe Samsija e a indômita Gaza. Talvez tivesse também recebido alguma promessa do Egito.
Mas para construir uma dissuasão adequada precisava igualmente do apoio do mais eficiente exército da região, o do Acaz, rei de Judá, sobrinho de Ozias. Para ele se volta, do fato, Pecakh, mas Acaz não quer saber de nada. Narra a Bíblia judaico-cristã (Reis, II, 16,5 ss):
“Então Reson, Rei da Síria e Pecakh, Rei de Israel, tomaram de assédio Jerusalém, e, após ter mantido longo cerco a Acaz, não conseguiu vencê-lo (...). E Acaz enviou embaixadores a Teglatfalassar para pedir-lhe: ‘Eu sou teu servo e teu filho, venha salvar-me das mãos do rei da Síria e de Israel que mobilizaram seus exércitos contra mim’. E, reunida toda a prata e todo o ouro que pôde encontrar na casa do senhor e nos tesouros da Coroa, enviou-os ao rei dos Assírios”.
Assim cativado, Teglatfalassar acorre do bom grado em auxílio de Jerusalém. Reson procura impedir-lhe a passagem, é derrotado e vai parar precipitadamente em Damasco, onde o rei assíria o encerra “como um passarinho na gaiola”, devasta todo o reino, desenraíza as árvores frutíferas, destrói seus esplêndidos jardins e reduz “591 localidades como um campo onde passou a tempestade”. Expede para Assur 21OO escravos e, deixadas em Damasco forças apropriadas para o assédio, prossegue com o restante das tropas para Israel:
“Conquistei o país de BIt-Khumri (Israel) e levei para o país de Assur todo seu espólio; esses (os israelitas) mataram Pecakh, seu rei, e eu coloquei sobre o trono Ausi’i (Oséias) e recebi seu tributo de dez talentos de ouro e mil de prata”.
E, como profetizara Amos, a população foi deportada em massa.
O Reino de Israel não foi, todavia, suprimida. Oséias, feroz adversário de Pecakh, assassinando-o, assumiu o titulo do rei com o beneplácito de Teglatfalassar. Foi o última rei de Israel, mas com a seu território limitado à Samária e a pequena região do Efraim.
Prosseguindo a marcha, o rei assírio vai agora acertar contas com Gaza, muito indisciplinada. Decide dar uma severa lição à rainha Samsija, “que tinha violado o sagrado juramenta feita ao Sol”, isto é, tinha se recusado a pagar o tributa acordado com a rainha precedente, Zabibija (em 738 a.e.c.).
“Ela, para salvar a vida, fugiu como uma zebra para a terra da sede (o deserto).” Teglatfalassar vai em sua perseguição e a surpreende “em meio ao seu acampamento”, aliviando-a do “3OOOO camelos, 2OOOO bois e 5OOO espécies de aromas”.
Dado que no deserto não havia nada a destruir, Teglatfalassar se retira e deixando ao lada da rainha um pro-cônsul, excursiona pelas vizinhanças também para impor taxas:
“Aos da cidade de Taima, aos sabeus, aos idibaileus (...) nos confins da terra do ocidente, que ninguém conhece e que habitam longe, e estes se apressaram a prostrar-se aos meus pés e oferecer-me ouro, prata, camelos e aromas de todo gênero”.
Satisfeito, confia a vigilância dos limites com a Egito “a Idibi’il (na Bíblia judaico-cristã, Adbe’el), da terra de Urubu (Arábia)”.
Enquanto isto, Damasco, depois de um longo assédio, rendo-se (em 731 a.e.c.) e torna-se província assíria. Reson é executado e Teglatfalassar, sentado em seu lugar no palácio real de Damasco, convoca todos os reis vizinhos para pagar tributa. Dentre estes são mencionados Acaz (que vai pagá-lo pessoalmente), Arvad, Ammon, Moab e Edom, isto é, toda a Palestina. Nem se fala de Oséias de Israel. Também a cidade de Tira, que tergiversava, é energicamente convidada a respeitar a intimação, e enviou “15O talentos de ouro”.
Neste ponto poder-se-ia pensar que toda esta gente se sujeitasse a pagar as tributos à Assíria em troca de alguma vantagem; não havia vantagem alguma, exceto a de se evitar males ainda maiores. Aqueles tributos eram tal como a “taxa do prateção” cobrada pela Máfia.
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A conquista da Babilônia
Agora o grande Teglatfalassar era a senhor inconteste de “Três Partes do Mundo”. Faltava a quarta, Babilônia, e os acontecimentos acabaram por oferecê-la quase espontaneamente a ele.
As relações com Nabonassar sempre se mantiveram cordiais a o rei assíria não deixou de enviar-lhe tropas para ajudá-lo a manter na linha os irrequietos “Filhos da Estepe”, e os ainda mais irrequietos da terra de Caldu.
Nabonassar morreu em 734 a.e.c. e sucedeu-lhe o filho Nabu-nadin-zêr. Reinou apenas dois anos: em 732 a.e.c., o príncipe arameu de Bit-Ammucani, Nabu-uquin-zêr (ou simplesmente Uquin-zêr), eliminado o herdeiro (Nabu-chum-uquin), usurpa o seu trono.
Teglatfalassar, em nome da amizade e da legitimidade, em 731 a.e.c. marcha contra Uquin-zêr, que se defende muito bem, dado que só em 729 a.e.c. o rei assírio consegue fazê-lo prisioneiro e destruir sua capital, Chachi, onde se tinha encastelado. Depois de que entra triunfalmente em Babel, sacrifica a todas os deuses locais, e na falta de pretendentes que preenchessem os requisitos por ele impostos, cinge a coroa de “Rei de Shumer e Acádia” com a nome de Pulu (o Phul, da Bíblia judaico-cristã).
O grande ancião morreu dois anos depois, deixando ao sucessor um império comparável só àquele de Naram-Sin, mas em perfeita ordem e sem inimigos em condições de ameaçar seu poder. Para consolidá-lo, ou, como ele mesmo disse, para tomá-lo “de uma boca”, tinha posto em ação o sistema do deportações em massa em escala jamais vista. Calcula-se que durante o seu reino vintenal, ao menos 1OOOOO pessoas devem ter-se transferido de uma localidade para outra.
Tinha fixado sua residência em Nimrud onde, para seu uso, ampliou grandiosamente, “sobre o modelo sírio”, o palácio construído de Salmanassar III, adornou-o de relevos representando, na maioria, as suas batalhas, e o adornou opulentamente com tudo que de precioso saqueara das “Quatro Partes do Mundo”.