A Revolta do Egito | O Rei Guigues | A conquista de Babel | O Fim do Elam | A biblioteca | O Mito de Assurbanipal | Referências Bibliográficas
O jovem Assur-báni-apal (“Assur cria um filho herdeiro”) teve educação completa e refinada; e um acurado tirocínio nos negócios do Estado, alternava a equitação, a caça e as artes marciais, a ponto de conseguir arremessar “as lanças mais posadas como se fossem flechas”.
Culto, atlético, esportivo e ambicioso, mostra-se a todos — talvez mesmo ate para Naquija, que teve de curvar-se perante a evidência — o soberano ideal.
À morte de Assarhaddon, Assurbanipal e o irmão, Shamash-Shumukin, subiram aos respectivos tronos da Assíria e Babilônia, sem encontrar nenhuma oposição.
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A Revolta do Egito
Assurbanipal herdava do pai também o problema do Egito. Confiou-o sagazmente a Chanubuchu, que, realmente, derrotou Taharca do novo, obrigando-o a refugiar-se em Tebas. Desta vez, espicaçou-o do porto.
O faraó, prudentemente, voltou à Napata, na Núbia, de onde tinha partido (669 a.e.c).
Mas uns dois anos depois, os serviços secretos assírios interceptaram uma mensagem enviada a Napata por Necau, Príncipe de Sais, isto é, daquele que Assarhaddon havia nomeado vice-rei do Egito. A missiva, que além de sua importante firma apresentava outras, propunha a Taharca a repartição do país em troca de sua ajuda para expulsar os assírios.
A reação foi imediata; as tropas de ocupação saquearam as cidades rebeldes; muitos conjurados foram empalados e Necau foi levado para Nínive, acorrentado. Permaneceu pouco tempo ali. Levado à presença do rei, Necau — presumivelmente homem dotado do irresistível fascínio e simpatia — soube justificar-se a tal ponto que Assurbanipal, ao Invés do mandar esfolá-lo, não só lhe perdoou tudo, mas devolveu-o à sua pátria, confirmando-lhe o titulo de vice-rei e oferecendo-lhe também o domínio do Mênfis. Necau correspondeu a esta confiança mantendo calmo o país e ocultando cuidadosamente qualquer provocação,
Em 661 a.e.c., morto Taharca, seu jovem sucessor Tanutamon desce triunfalmente o Nilo e conquista Mênfis, desesperadamente defendida por Necau, e bem consciente deste ato impensado, proclama-se faraó. Tanutamon agia sozinho, contra o parecer dos príncipes do Delta que lhe haviam suplicado para não cometer loucuras.
Por conseguinte, Assurbanipal cai sobre o Egito, expulsa Tanutamon e o persegue até Tebas, que desta vez foi devastada entre massacres e saques pelas ruas; suas fabulosas riquezas foram transportadas à Nínive, a população reduzida à escravidão.
A notícia da destruição da mais bela cidade do mundo abateu-se pesadamente sobre todos os povos, suscitando profunda emoção. Tanutamon conseguiu chegar a Napata, muito distante para ser atingida pela vingança de Assurbanipal, não mais se arriscou a provocar o rei assírio.
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O Rei Guigues
Depois da desapiedada vitória, Assurbanipal arrecada os tributos dos territórios vassalos palestinos e sírios e pela primeira vez entra em contato com o distante país cujo rei, “Guggu de Luddi”, isto é, Guigues, da Lídia, lhe envia uma embaixada. Esta criou não poucos embaraços para se achar um intérprete que entendesse alguma coisa da estranha língua dos lídios. Ao fim, concluíram que eles pediam auxílio dos assírios contra os ameaçadores cimérios. As consultas entre Assurbanipal o Guigues se estenderam por algum tempo:
“A Guggu, rei da longínqua Lidia, região além-mar, da qual os meus predecessores jamais ouviram falar sequer a nome, Assur fez aparecer em sonho o meu nome e lhes disse: ‘Abraça os pés de Assurbanipal e abate em meu nome os teus inimigos’ (...). Pode assim vencer os guimirru (cimérios) que oprimiam os habitantes do seu país, que não temiam os meus antepassados, nem a mim. Com a ajuda de Assur, fez prisioneiros dois chefes dos guimirru e mandou-mos encadeados, com ricos presentes”.
Mas, como o documento deixa entender claramente, Guigues enviava para Nínive fabulosos presentes para obter sua ajuda, e Nínive aceitava todos aqueles donativos mas deixava que Guigues se virasse sozinho.
Este, não sabendo a que fazer com o deus Assur e com a taumatúrgico nome de Assurbanipal, a certa altura decidiu procurar aliados mais interessantes, e cortando as relações com a Assíria, enviou mensageiros a Psamético, filho do Necau, que tinha sido morto na defesa do Mênfis.
Assurbanipal, advertido disto, não pôde fazer outra coisa senão desferir contra ele uma maldição: “Possa o seu cadáver ser lançado fronte aos seus inimigos e que eles possam levar embora os seus ossos”.
E assim foi:
“Os guimirru, que ele colocara sob seus pés pronunciando o meu nome, vieram e submeteram todo o país. A ele sucedeu o filho (Ardis). Este me mandou um embaixador para informar-me das desventuras que, pela minha oração, tinham atingido seu pai, e abraçou os meus pés dizendo: ‘Se benigno comigo, teu humilde vassalo, e não me impõe a teu jugo’ “.
Mas agora, era tarde demais: sempre segundo Heródoto, sabemos que “os cimérios, expulsos de suas terras por abra dos citas, foram para a Ásia e conquistaram Sardes, salvo a acrópole”.
Psamético, ao invés, não tergiversa: homem de extraordinária habilidade e inteligência, servindo-se dos mercenários a ele enviados por Guigues e agindo em absoluto segredo, em 648 a.e.c. expulsa as guarnições assírias e sobe ao trono, como faraó. Assurbanipal, tomado de surpresa, comporta-se inteligentemente, desinteressando-se daquele distante e soturno rival.
Enquanto estes fatos, um tanto marginais, se desenrolavam na extrema periferia do império, ameaças bem diferentes se avizinhavam no horizonte. Urtacu, Rei do Elam, não obstante o tratado do paz com Assarhaddon, e não obstante as boas relações formais com Assurbanipal, o qual, num período de carestia, enviara-lhe socorro em víveres, manifestou em breve propósitos belicosos. Aproveitando a ocasião da campanha na Egito, procurou o apoio do alguns altos funcionários de Babel — dentre os quais Nabu-Bel-chum (Supremo Inspetor dos Canais) o um certo Bel-Bacha — e em 664 a.e.c. tentou invadir a Babilônia.
Os “turtãnu” o expulsaram para trás com uma certa facilidade e Assurbanipal apressou-se em punir o traidor. Mas neste entretempo Urtacu tinha sida assassinado pelo próprio irmão Tepti-Khumban (ou Teumman), o qual pretendia suprimir também seus dais sobrinhos, legítimos herdeiros do trono. Estes, porém, conseguiram fugir e colocam-se sob a proteção do rei assírio.
Teumman pretende a extradição dos dois fugitivos. Como resposta, Assurbanipal marcha com um grande exército sobre o Elam levando consigo os dois protegidos. Teumman o enfrenta sobre o Tigre, mas, ao ver o exército inimigo, retira-se precipitadamente para defender Susa.
Assurbanipal prossegue, até aqui imperturbado, entra em Susa, captura e manda decapitar Teumman e seu filho, e entroniza in loco os sobrinhos. Um deles, Khumbanigach III, com o encargo do Elam, e o outro, Tammaritu, como governador do Khindatu, e sobretudo como vassalos da Assíria.
No retorno, captura os filhos de Bel-Bacha e do Supremo Inspetor dos Canais e as leva para Nínive, onde os foi torturar até a morte.
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A conquista de Babel
Em seus relatos sobre a campanha do Elam, Assurbanipal não menciona nunca o irmão, Shamash-Shumukin, nem o apoio que é lógico supor que este tivesse oferecido naquela ocasião. Ao contrário, nas inscrições daquela época afirma te cumulado o “Rei de Babel” e seus súditos com presentes e infinitos benefícios. Todavia declama que “eles obedeciam as minhas ordens”, e pode ser que achasse obrigatório o auxílio recebido. É fato que esta espécie de sujeição não era muito grata a Shamash-Shumukin, mesmo que seu mal-humor até aquele momenta se expressasse apenas em pequenas coisas quanto ao rei da Assíria; como, por exemplo, vetar-lhe cumprir sacrifícios nos templos babilônios.
Mas a discórdia prevista pelo sábio astrólogo Adad-chum-ussur evidenciou-se quando o Rei da Babilônia decidiu eliminar do cenário o prepotente irmão caçula. Enquanto este estava ocupado em Urartu com o apoio incondicional do partido nacionalista babilônio e talvez com a enganosa esperança do tornar-se também rei da Assíria — preparou uma coalizão que, ao menos no papel, resultava formidável. Os aderentes eram: Elam, Bit-Jaquin, Bit-Ammucani, Bit-Dacuri (isto é, na prática, toda a Caldéia), os árabes, os gútios, os Estados arameus do Golfo Pérsico, alguns príncipes palestinos e o faraó Psamético.
Os serviços secretas detectaram a situação com atraso, mas não tanto a ponto de impedir que Assurbanipal caísse sabre Babel antes que as forças da coalizão pudessem efetivamente reunir-se.
As circunstâncias foram totalmente adversas para Babel, tanto que ninguém conseguiu opor-se ao assédio. O Elam, perturbado por lutas internas, não pode interferir; Psamético, naquele momento ocupado em reconquistar parte dos territórios do Retenu, teve de voltar à sua pátria para defender suas fronteiras de uma incursão dos citas. Os Estados de Caldu foram subitamente bloqueados. Mesmo a Babilônia sofria de uma grave carestia. -
Assurbanipal teve assim o seu trabalho muito facilitado. Em 652 a.e.c., interrompe todas as vias do abastecimento para as principais cidades e espora a sua queda pela fome. Mas a heróica Babel, apesar de desprevenida para enfrentar um tal assédio, resiste por cerca de quatro anos, e Assurbanipal com evidente satisfação afirma que seus cidadãos foram obrigados a alimentar-se do seus próprios filhas.
Em auxilio da cidade cercada chega por fim um esquadrão de cameleiros árabes os quais, desbaratados refugiam-se desordenadamente dentro dos muros de Babel, multiplicando-lhe os já dramáticos problemas de subsistência. Até que em 648 a.e.c. as tropas assírias desferem o ataque final contra a cidade exaurida. Seus defensores, dizimados pela fome e pestilência, não tem força para ficar do pé tudo é encerrado com um massacre. Babel, recém reconstruída, é destruída uma segunda vez. Shamash-Shumukin, sabendo sobre o que o esperava se caísse vivo nas mãos do irmão, lançou-se às chamas de seu próprio palácio.
Assurbanipal assume o titulo de Rei de Carduniach, mas evitou cuidadosamente os erros de Sennakerib: não profanou templos e terminada a ação bélica, não atacou os sobreviventes. Adotou mesmo uma política de conciliação, conferindo os poderes locais a Candalanu, um babilônio que lhe pareceu digno do confiança e que nomeou vice-rei.
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O Fim do Elam
Não foi, entretanto, conciliador com os cúmplices de Babel que desentocou um por um, primeira de todas o Elam, que se revelou inimigo duríssimo de eliminar, e ao qual dedicou uma dezena de anos.
A situação era então muito confusa. Quando Assurbanipal atacou Babilônia, Khumbanigach tinha sido assassinado pela irmão Tammaritu, o qual permanecera fiel no pacto partindo com um exército em auxilia de Babel. Não estava, porém, à vista do inimigo, quando um seu oficial, Imdabigach, considerando a empresa insensata, desencadeou uma revolta em Susa, e proclamou-se rei, procurando obter de Assurbanipal uma paz honrosa. Este lhe impôs as seguintes condições: a entrega do exército de Caldu, que tinha se refugiado todo no Elam, além de todos os foragidos, e a rendição incondicional.
Imdabigach não teve nem tempo de considerar a proposta. O partido nacionalista, por temor que aceitasse, o eliminou, pondo sobre o trono Khumman-Khaldach III.
Nesta frenética superposição de soberanos, todas os possíveis pretendentes, legítimos ou não, enxameavam em Nínive, colocando-se sob a proteção assíria. Assurbanipal tinha agora um farto e variado estoque, do qual escolheu Tammaritu, e com este a seu lado, em 646 a.e.c. entrou no Elam o o impôs como rei, colocando ao seu lado o costumeiro grupo de conselheiros. Khumman-Khaldach tinha se refugiado nas montanhas.
Mas o impulsivo Tammaritu não suportou muito os seus guardiões e decidiu livram-se deles; agiu apressadamente, porque as tropas assírias ainda não tinham abandonado completamente o país; logo voltaram atrás o destruíram “vinte e nave cidades”.
Derrotado Tammaritu, dos montes desce Khumman-Khaldach, que senta novamente em seu trono.
O fim daquele trono, porém, estava marcado. Em 64O a.e.c. Assurbanipal decide liquidá-lo de uma vez par todas, sendo a Elam uma milenar fonte de intrigas e surpresas desagradáveis. Com um formidável exército devasta todo o território até Carun, tornando-o um deserto, e completa a obra com a conquista de Susa, que arrasa totalmente, entre horrendos massacres.
“Levei comigo as cinzas do Susa”, afirma Assurbanipal, mas junta com as cinzas, também todas as obras de arte, inclusivo uma estátua de Inanna que os elamitas tinham levado de Uruk mais de 2OOO anos antes.
A queda de Susa ocorreu em 639 a.e.c. Com esta data, o Elam desaparece da história.
Enquanto isso, os diversos “turtânu” cumpriam expedições punitivas contra os árabes do deserto, os caldeus os nabateus. Numa destas, apoderaram-se de todos os poços deles, e assim “muitos morreram de sede; outros esquartejaram seus camelos para saciam a sede no sangue deles”. Um chefe, de nome Uati’u, capturado e levado para Nínive, foi cegado, castrado e levado numa jaula com uma coleira de cão.
O butim destas campanhas foi considerável, tanto que os camelos — até então raros na Assíria — “eram em tal abundância que foram distribuídos à população de Assur como gado miúdo e nos mercados públicos um camelo não custava mais de meio siclo do prata e os camponeses podiam trocam por uma ninharia camelos e escravos”. O poder do Assurbanipal tinha agora atingido o seu ponto máximo. Em 664 a.e.c. Tiro e Aco também caíram sob seu domínio.
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A biblioteca de Assurbanipal
“Adquiri o arcano tesouro de toda a arte do escrever sobre tábuas. Entendo os presságios do céu (...), discuto no circulo dos sábios (...), sei resolver difíceis e impenetráveis problemas de matemática; sei ler os textos escritos com arte, na complicada língua dos sumérios e na dos acadianos, difícil de decifrar; analisei as pedras escritas na época do dilúvio universal, que eram totalmente incompreensíveis (...). Entendo de toda doutrina...”
Com estas palavras o rei proclama aos contemporâneos e aos pósteros a sua cultura. Não se tratava de vanglória: Assurbanipal foi verdadeiramente homem muito culto e refinado, cuja paixão sincera pelo estudo não tinha nada de amadorístico. A sua cultura era autêntica e de primeira ordem. Sendo o terceiro-gênito, e não tendo pois nenhuma perspectiva de um dia subir ao trono, foi preparado para a carreira sacerdotal. E aqui, na escola do templo, aprendeu avidamente tudo o que era conhecido em seu tempo, a escrita, a magia, a ciência, a literatura, a religião. Matérias que um príncipe hereditário educado na rígida disciplina militar normalmente desconhecia.
Por quase meio século dedicou-se a este seu hobby em todo momento livre; chegou mesmo a organizar a maior biblioteca do mundo, antes da de Alexandria.
Não era, porém, novidade: uma biblioteca bastante volumosa já era patrimônio da corte do Nínive. Existia uma em Hattusa e não deve ter faltado uma a Babel e outras cidades, mesmo que a maioria das bibliotecas fosse constituída, em verdade, de arquivas.
A grande inovação consiste no método rigorosamente filológico com o qual a biblioteca foi concebida e realizada. O rei enviava a todas as lugares os seus encarregados da pesquisa de textos antigos e documentos, os quais, levados a Nínive, eram submetidos a avaliação de um numeroso grupo do estudiosos que estabeleciam sua autenticidade ou, na dúvida, submetiam-no a uma análise comparada para eliminar erros ou acréscimos arbitrários. Depois do que os textos eram copiados em um ou mais exemplares, freqüentemente com a tradução interlinear em assírio, e restituídos ao legítimo proprietário. Não se deve excluir que algumas cópias tenham saído das mãos do próprio Assurbanipal.
O total, constitui de por cerca de 3OOOO tabuinhas, era apuradamente catalogado, com assinaturas regulares, segundo critérios bibliográficos precisos.
O ex libris na sua forma mais comum, dizia:
“Palácio de Assurbanipal, o Rei Universal, o Rei da Assíria ao qual Nebo e Tachetu (a esposa de Nebo) concederam orelhas abertas a olhos abertos para poder efetuar as inscrições sobre as tábuas, dom que não teve nenhum dos meus predecessores. Escrevi sobre as tábuas a sabedoria de Nebo, cheia de belezas, e as depositei no meu palácio para poder guardá-las e ler”.
Esta “sabedoria de Nebo” compreendia todo a conhecimento em cuneiforme, desde as antiqüíssimas fórmulas de esconjuro sumérias, aos grandes poemas religiosos e literários, documentos de fundação dos templos, listas cronológicas, calendários, textos científicos, anais e resumos históricos. De tudo isto não sabemos exatamente o quanta foi mandada copiar para Assurbanipal.
Uma outra seção de glotólogos compilava dicionários para a compreensão dos documentas mais antigos.
As obras não tinham um título particular; eram catalogadas segunda as duas ou três primeiras palavras. O autor é sempre anônimo; assim, se na biblioteca de Assurbanipal estivessem a Divina Comédia e a Promessi Sposi, poderíamos encontrá-los sob os termos “No meio” e “Aquele ramo”.
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O Mito de Assurbanipal
Assurbanipal, muito hábil em destruir cidades e nações internas, foi igualmente hábil na organização e na construção. Em Nínive onde residiu, ergueu junta ao de Sennakerib um suntuoso palácio cujos alicerces hoje não estão ainda totalmente escavados. Destes provêm os famosos relevos com as caçadas, os mais belos de toda Mesopotâmia (Museu Britânico).
Preocupou-se em incrementar a agricultura e o comércio. Durante o seu longuíssimo reinado, as colheitas — ao menos assim nos assegura — foram abundantes, e o comércio teve novo impulso depois da construção de um porto livre em Arvad, dotado de cais exclusivamente destinados a carga e descarga de mercadorias para a Assíria.
Assurbanipal foi assim um personagem bizarro, devoto dos estudos na biblioteca, mas impiedoso nas vinganças; inclinado ao prazer da crueldade, mas também com lances de inesperada clemência. Não foi propriamente um rei-soldado, e na maioria das vezes preferia confiar a chefia das expedições aos seus generais, mas quando tomava o comando, batia-se com grande valor e coragem. Não conquistou nada de novo, mas foi um dominador: à parte o Egito, que era território muita difícil de controlar, soube governar com autoridade todos os territórios de seu império. Destruiu ferozmente o Elam, mas em relação ao rei Sardur III do Urartu, mostrou-se muito benévolo.
Seu lazer era marcado com muito refinamento. Reunia em seu harém as mais belas mulheres escolhida a dedo e só as de alta linhagem, como as filhas do rei do Tiro, Man, Arvad, Tubal. Os vassalos, para agradá-lo, presenteavam-no de bom grado com suas filhas, naturalmente só se muita belas.
A extravagância de seu caráter despótico e contraditório emerge também na descrição que faz Diodoro Sículo no segundo volume de sua biblioteca Histórica, onde lhe atribui o cognome de Sardanápalo, o do início o define como um “homem do nada” escandalizando-se pela “extrema moleza na qual vivia e pelos modos oprobriosos do que revestia todos as seus atos, imitando as mulheres”. Mas depois de algumas páginas, o descreve de modo enérgico, narrando a grande resolução com a qual soube dominar uma revolta.
Típica figura de sátrapa oriental, faustoso exemplo do “genio e desregramento”, não pôde fugir a atenção dos românticos, e teve um breve revival de celebridade quando Lord Byron, em 1821, lhe dedicou um drama. Enfim, tornou-se o mais famoso rei da Assíria quando, inspirando-se neste drama, o grande Eugene Delacroix pintou a truculenta e famosa Morte de Sardanápalo, que se pode admirar no Museu do Louvre.